A dor e o Luto após um Aborto Espontâneo…

luto

Oi meninas!

Hoje trago um tema um quanto triste, mas necessário de se debater…

Durante toda a minha experiência como ultrassonografista, tenho lidado com mulheres que infelizmente têm sua gestação interrompida e sou eu quem tem que dar essa notícia… Não é nada fácil dizer pra uma mulher que aquele sonho que estava se gerando dentro dela não existe mais… Depois que eu me tornei mãe ficou ainda mais difícil, mas infelizmente não posso me calar. Preciso orientar a mãe e o pai sobre como agir e quem procurar.

A perda

A gravidez, quando sonhada e desejada, ou mesma aquelas que pegam algumas de surpresa, vem acompanhada de muitos desejos, motivações, expectativas e idéias correndo a mil por hora na cabeça da mulher. É uma montanha russa de sentimentos. Um momento mágico e único para a mulher. Mesmo que ainda seja um pequeno embrião, a sua perda causa uma dor emocional difícil de amenizar. Só o tempo mesmo para curar certas cicatrizes e deixar somente uma saudade no lugar.

Quanto mais tempo de gravidez, maior é o laço emocional da mãe com o seu bebê ali dentro. Ela sente os enjôos, as cólicas, os chutes… Descobre-se o sexo, dá-se um nome, planeja-se um quartinho e o sonho vai crescendo junto com a barriga. Quando a gravidez se interrompe de forma inesperada, a dor emocional se torna inestimável. Só quem realmente sofre uma perda sabe o que é. Os familiares e amigos nem sempre conseguem dar o apoio que a mulher precisa naquele momento, muitas vezes dizem coisas do tipo “não se preocupe! Logo você engravida de novo!” ou “não precisa chorar, isso acontece!” ou simplesmente as pessoas desaparecem por não saberem como lidar com a situação.

Nenhuma gravidez substitui outra. Simplesmente não é assim que funciona. A mulher pode ter muitos filhos, mas vai sempre se lembrar daquele que, um dia, ela perdeu.

É preciso passar pelo luto…

A perda de algo tão especial requer um certo tempo de lágrimas e dor. O luto é isso: elaborar a perda gradativamente para continuar vivendo a vida. A família de alguma forma consegue elaborar a perda com mais facilidade, mas pra mãe é diferente. O processo é lento e não tem tempo definido para terminar. Cada pessoa elabora do seu próprio jeito, mas a tristeza, o choro e o afastamento estão quase sempre presentes.

Freud disse que “O luto é um processo lento e doloroso, que tem como características uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor.”

É muito importante que o tempo de luto seja respeitado pelos amigos e familiares. A mulher precisa se entristecer, sentir a perda, pois é lado a lado com a dor que se consegue elaborar tudo e dar lugar à saudade. Claro que é comum e esperado que os amigos falem pra mulher que ela não precisa sofrer assim, que logo ela engravidará de novo, e eles têm a melhor das intenções. A gente não gosta de ver quem a gente ama sofrendo, é claro. O que a mulher precisa nesse momento é de empatia, de pessoas que compreendam seu sofrimento sem tentar anular seu sentimento.

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Se todos tentarem anular seu sentimento, dizendo pra não chorar e que não precisa sofrer, a mulher não se entrega ao processo de cura interior. Então tentar não tocar no assunto ou se esquivar dele, talvez não seja a melhor solução. A mulher precisa falar e se expressar, tudo no tempo dela, para conseguir sair dessa tristeza de maneira psicologicamente saudável.

O sentimento de culpa

É muito comum a mulher se culpar pela perda de seu filho. Quantas vezes eu escutei: “doutora, que foi que eu fiz de errado?”. A mulher tenta de todas as formas encontrar uma razão em que possa colocar toda a culpa, mesmo que seja castigo divino. Infelizmente nem sempre existe um culpado. O aborto pode acontecer em qualquer classe social, em qualquer idade e a qualquer momento.

A mulher começa a pensar (erroneamente) que ela é impotente e que não merece ser mãe. E quando os abortos vão se repetindo, esse sentimento e ressentimento vão piorando, infelizmente. Se a mulher continua triste e se punindo, mesmo que todos a sua volta tentem fazê-la voltar à realidade, que não temos o controle de todas as coisas, já é hora de procurar ajuda.

Como já disse, a tristeza após a perda é totalmente aceitável e esperada, mas esse processo de luto precisa ter meio e fim.

Superando…

Amigos e familiares têm papel fundamental no processo do luto materno. Citei a palavra empatia num parágrafo anterior e aqui explico melhor: ter empatia não é tentar ser simpático, é se colocar no lugar do outro, sem julgamentos. É ser o ombro amigo para ouvir, não pra tentar achar saídas. É oferecer o colo pro outro chorar ou simplesmente rirem juntos. É realmente tentar sentir o que o outro está sentindo, mas não a partir daquilo que a gente acha que é certo.

Considerações pessoais

Graças a Deus eu nunca tive que passar por esse sofrimento, mas convivo com essas mulheres com uma certa frequência, infelizmente. Não existe maneira “boa” de dar uma notícia como essa… Eu tento, de todo o coração, ser empática e oferecer meu amparo à minha maneira. Às vezes posso errar, ainda estou aprendendo…

Penso, como médica, que quando uma gravidez não progride, sendo a mãe saudável, é porque alguma coisa em relação ao bebê não estava indo bem, cromossomicamente falando. A própria natureza se encarrega de interromper o processo, mas acaba trazendo sofrimento junto.

Então, se você sofreu isso ou está passando por isso agora, espero sinceramente que seu luto seja real e bem elaborado. Chore, fale, ponha pra fora aquilo que te angustia com alguém de sua confiança para que você, em breve, possa estar aberta pra vida e para as coisas maravilhosas que ela ainda tem a te oferecer!

Um beijinho no coração. Espero que tenham gostado. 

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